sábado, 23 de fevereiro de 2013

Haicais do Piauí com sabor de caju

Colaboração de José Marins, com entrevista Teresa Cristina Cerqueira de Souza, a Flor de Caju

Os haicais que li me chamaram a atenção para uma sintonia fina entre a vivência e o uso da linguagem na realização do poema. Quem seria a haicaísta que assina como Flor de caju, me perguntei? Teresa Cristina é de Piracuruca, norte do Piauí. Piracuruca, peixe que resmunga, é também o nome do rio que passa pela cidade. Ela é professora, formada em Letras, mãe e avó. A riqueza da paisagem, da flora e da fauna onde mora, pode ser notada nos haicais dessa colega que tem no diálogo com a natureza e com seus leitores a singularidade de sua poesia.


José Marins - Seus haicais são portadores de uma delicada linguagem, uma simplicidade de mestra. Como foi que conheceu e desenvolveu seu gosto pelo haicai?

Teresa Cristina - Falar de como conheci e me apaixonei pelo haicai, remete a dois homens que “conheci”.

A primeira vez que vi Luciano Almeida foi em 2008, por volta do mês de março. Ele estava à uma mesa em um restaurante, folha de papel e caneta, mas o que me chamou a atenção foi o ato de ele contar sílabas com os dedos. Aquilo me atraiu e muito curiosa perguntei a uma amiga quem era aquele rapaz. “Um poeta.”, ela me disse, “Escreve uns poemas chamados haicais. Acho que ele conta a quantidade de sílabas para os versos”. Sim, literalmente ele contava sílabas poéticas. Ao chegar em casa procurei na Internet quem era Luciano Almeida e me encontrei com versos como este e uma forma toda particular desse haicaísta piauiense:

Grafitada a rã
Nas ruínas de algum templo –
Súbito som de água.
Luciano Almeida (outros haicais do autor)

Uma porta se abriu dentro de mim descobrindo sensibilidade e imagens que eu não julgava possuir. Então, precisei falar com esse poeta. E o fiz. Enviei-lhe um e-mail e depois de oito meses de conversa online eu estava em febre pelo haicai. E como Luciano postava no Recanto das letras, eu também o fiz. Bem, Luciano faleceu em fevereiro de 2009 e não teve tempo de saber que eu rabiscava meus haicais, inclusive, (risos) com o hábito de contar sílabas nos dedos).

Uma aproximação com a Câmera Brasileira de Jovens Escritores no Rio de janeiro fez com que eu recebesse um e-mail de Djalma Stüttgen, em dezembro de 2009. Ele me enviou dois de seus livros em ebook: As Quatro Folhas e No Credo.

A densa neblina.
Aumentam pela varanda
Os focinhos amigos.
Djalma Stüttgen (do ebook As Quatro Folhas)

Bem, após a morte de Luciano eu me sentia perdida, já que em minha cidade não conheço quem pratique esse tipo de poesia. Uma visão de outro poeta e um professor. Djalma me pediu que eu desfrutasse dos poemas. E me arrisquei a lhe enviar um haicai:

Queimadas nas estradas

Cigarro jogado
O asfalto agoniza a dor
Da mata queimando

Djalma me falou: “Não precisa de título. É o carinho interno. Está tudo contido nos seus versos. A imagem e você”. Eu começava a compreender uma realidade que sempre esteve comigo, mas que estava guardada, que eu reconhecia nas imagens do lugar onde sempre vivi. Bem, Djalma ainda hoje é meu mestre virtual; ainda não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente.

JM - Como você realiza os seus haicais com tantas vivências junto à natureza?

TC - No Piauí, chamamos à época das chuvas de inverno e o tempo seco e quente de verão. Nos primeiros meses do ano, as borboletas amarelas invadem os matos, principalmente perto do rio onde cresci. Desse modo, minhas imagens da natureza têm muito de borboletas e flores.

As borboletas
Praticam idas e vindas
Em torno da flor

Sei que o fio condutor de meus haicais é minha infância, tão cheia de brincadeiras infantis ao ar livre. Em um e-mail enviado a Djalma, com haicais dessas lembranças, recebi como resposta um incentivo a trabalhar esses conteúdos na escola. Veja:

Sem baladeira
O curió canta livre
Para os meninos

Todos os olhares
Para um barco de papel
Aula interessante

E Djalma: ”Você escreveu no quadro-negro? Isso educa. E a respeito do último, onde vai o seu pequeno barco?”. As ideias de meu amigo me levavam a querer ampliar minha visão de leitura do cerrado, da caatinga... do Brasil:

Dentro da floresta
Um raio alcança
Uma vitória-régia

No alto da serra
O verde desce num cipó
E põe os pés no chão

Ao que ele me respondia: “Teresa, vou ver o Sol. Vitória”. Era um estímulo, que me transformava em menina, em poeta:

Sploc sploc no banheiro
Soltas nas pequena mãos
Bolhas de sabão

JM - Então, como professora, você tem uma prática do haicai com os alunos?

TC - Desde que comecei a escrever haicais, em novembro de 2008, tenho buscado falar dessa poesia para os que me cercam. Procuro não fugir dessa essência que recebi. Os haicais são meus filhos, eu os pari e os mostro com orgulho. Assim, falo da vida que há neles:

Água do riacho
O barquinho muda o rumo
Nas mãos do menino

Doce de goiaba
As formigas andarilhas
Movem-se na mesa

Hora do recreio –
O cheiro dos cajuís
conquista os meninos

A ideia é que meus alunos se encontrem na profundidade das palavras que estão num haicai. Hum, lembro-me de minha mãe quando lhe mostrei este:

Foto na parede
A anciã de pé relembra
Das negras madeixas

As palavras dela: “Obrigada. Depois vou pedir uma remessa especial”.


JM - Como você pensa um futuro para a sua produção haicaísta? Pretende publicar em livro o que já vem fazendo em blog?

TC - Meu desejo é que as pessoas sintam a beleza, a delicadeza, as imagens, o diálogo que se tem com o haicai. Quero ter passos fortes para então correr atrás de um livro para publicar. E esse livro levará o nome de Cajuís. Sugestão de Djalma: “Cajus pequeninos, que são seus haicais, que agora ocorreu-me o nome de cajui, [do tupy akayu’i, ‘caju pequeno’.] S. m. ... (Aurélio), cujo cesto está repleto. Editado o seu precioso livro “Cajuis” mande-me um exemplar – exemplar”. Eu o farei. É uma promessa, meu amigo.

Vento no capim –
As borboletas sabem
voar bem veloz

Tenho a impressão de que como até hoje ainda vejo as mesmas borboletas de minha infância, isso sugere que estou indo... e vou conseguir ser uma haicaísta do Piauí.


Outros haicais de Teresa Flor de Caju:

Cajuís maduros –
Reparto com os meninos
Meu lanche da escola

Início de junho –
Com flores no cajueiro
Penso já nos frutos

Manhã de março -
Os mandacarus abrem
suas brancas flores

O tempo das chuvas –
As folhas ficam mais verdes
por entre as flores

Abre-se – o céu
pois um bem-te-vi sozinho
parece tão grande

Flores de ipê –
Enquanto o vento não vem
enfeitam o chão

Perfume de rosas –
O calor da manhã tem
Mais delicadeza

Estrada de chão -
Os jumentos passam lentos
transportando palhas

Esta tarde seca!
As carnaúbas tão vazias
Sem os bem-te-vis

No mesmo lugar,
um menino e uma árvore –
Manhã agitada

Noite de calor –
E sem querer se calar
um grilo no quarto

Uma flor na água –
Borboletas amarelas
passam devagar

Mesmo com calor
é do céu da Caatinga
este azul suave


Blog de haicais da autora:
http://teresacristinaflordecaju.blogspot.com.br/
Contato: http://facebook.com/teresacristina.flordecaju

José Marins, é escritor e haicaísta: http://fieiradehaicais.blogspot.com/

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Entrevista: Os haicais que vêm com o vento sul

Colaboração de José Marins


Não é todo dia que surge um poeta de haicai. Para esse tipo de poeta são precisos muitos anos, o observar das estações com sentidos hábeis e mente alerta, a escrita apurada que vem de insistente aprendizado, leituras e buscas.

Quando comecei a ler os poemas de Luiz Gustavo Pires, tive a forte impressão de haver descoberto um poeta, a pedra preciosa depois de meticuloso garimpo. Com esta entrevista ele também se revela um joalheiro na mestria de afinado cinzel na poética de sua arte.

Em seus dados nada de títulos, instituições, vaidades que tais. Apenas a claridade da sua poesia, a estrela que brilha em sua vida de poeta. Um livro, um prêmio. Gaúcho de Tramandaí, 50 anos, se autodefine como policial civil, poeta, companheiro, pai e amigo.

José Marins: Como foi que conheceu o haicai e aprendeu a realizá-los tão bem?

Luiz Gustavo Pires: Meu contato com o haicai foi no início dos anos 80. Lembro que li algumas traduções de haicais de Bashô, feitas por Olga Savary, na Biblioteca Pública de Porto Alegre. O primeiro haicai que me chamou a atenção foi este:

trégua de vidro:
o som da cigarra
aturde rochas

As imagens, cheias de símbolos, deixaram-me tonto. Muito em tão pouco. Por coincidência, também li esse haicai no livro Letra de Forma, de Osvaldo Cícero Wronski, poeta de Londrina/PR. Ler Paulo Leminski, na mesma época, Haroldo de Campos, Décio Pignatari , Octávio Paz, Ezra Pound e muitos outros, também me levou a desvendar o haicai. Me fascinou e eu me aprofundei. Tinha-se pouca literatura sobre o haicai no Brasil. Era difícil. Paulo Leminski foi um vetor. Lia sua poesia, seus haicais, e era aquilo que eu queria fazer. Em Porto Alegre, lembro, Mário Pirata, Ricardo Silvestrin, Alexandre Brito e outros, praticavam o haicai à moda leminskiana. Faziam poesia em mimeógrafo, cartazes e camisetas e vendiam pelos bares, praças e parques da Cidade. Daí, vieram os exercícios primeiros do poemeto. Meu primeiro quase-haicai, escrito em 1985, foi:

pé-de-vento
a poeira anda nervosa –
será o saci dentro?


Vieram outros e mais outros. Adotei a idéia de quantidade primeiro. Mas a produção ainda era muito pequena. Depois veio a qualidade. Mestre Goga diz em Goga e Haicai – um sonho brasileiro:
“não se preocupe com a qualidade, componha apenas“.
Eu já pensava dessa maneira, muito antes de lê-lo. Era assim com minha poesia. Claro, a qualidade para mim sempre foi imprescindível e passei a lapidar tudo o que escrevia. Lembranças de infância foram o ponto de partida, já que toda ela foi em contato direto com a natureza, em uma cidade do interior gaúcho, Rolante. Cheia de rios, riachos, morros, colinas, montanhas, florestas, campos, fauna e flora, clima e vivências. Tudo isso veio à tona. Eu lia tudo sobre poesia. Todos os poetas, brasileiros e estrangeiros e de todas as épocas. Do clássico ao concretismo. O que era bom eu absorvia. Com o tempo, tu bem sabes, vamos crescendo naquilo que fazemos. Comigo não foi diferente. Ao final dos anos 80 comecei a praticar o haicai com mais afinco. Foi quando saiu meu livro Quadrantal, não de haicais, mas de poemas mais concisos do que os que crio hoje. Minha poesia era urbana. Visceral. Era algo que eu trazia há muito dentro de mim, desde os meados dos anos 70, e resolvi publicá-los. Vencer o Prêmio Mauá de Literatura (Porto Alegre, 1989) me deu o empurrão necessário. Encantei-me com a palavra. Participei de encontros literários por aí afora, entrei em contato com diversas correntes da poesia, dentre elas o haicai. Em 1989, quando estava em Florianópolis lançando meu livro, fiz este haicai:

árvore grande:
nesta manhã de verão
não há melhor sombra
[sob a figueira da praça XV em Florianópolis – verão/dezembro/1989]

Este haicai foi um divisor de águas. Cresci muito em todos os sentidos. Mas sempre fui honesto comigo mesmo e autocrítico. Sou um homem tímido e muito reservado. Nunca projetei holofotes sobre mim. Tudo o que eu escrevia era guardado. Não mostrava a ninguém. E durante anos eu ficava sem escrever. De repente, voltava à ativa e (re)criava. Após um câncer de que fui acometido, atirei-me de corpo e alma à poesia. Resolvi mostrar o que sempre guardei, pois não sabia até onde iria. Nem minha esposa, Claudia, lia o que eu escrevia. Ela conhecia Quadrantal, mas os novos poemas e haicais veio a ler no ano passado. Foi quando ela passou a se interessar pela poesia e pelo haicai. Durante mais de 20 anos minha poesia hibernou. Me perguntei: por que guardar meus poemas e haicais? E hoje, estão aí em meus blogs, escarceunario (poemas), setecetaras (haicais) e manto de plumas (tankas).


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Haicai - Lua de Outono


noite em claro -
pai e filho observam
a lua de outono

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Haicai - Girino


lembrança de menino
fazendo cócegas na mão
a cauda do girino


Publicado originalmente no blog De Chaleira.

José Marins e Sérgio Pichorim na Revista CBN


Neste sábado dia 22 a rádio CBN voltou a falar sobre haicai, numa discussão interessante com meu querido José Marins e Sérgio Pichorim sobre o projeto Fieira de Haicais.

Ouça abaixo a matéria:



E não deixe de visitar o blog Fieira de Haicais, cujos haicais encadeados já chegaram ao número 440:

Tarde bem-te-vi.
Um filhote, sua mãe
e o gato em fuga.
Sérgio Pichorim 07-10-11

ps: peço desculpas aos meus leitores por estas pausas longas que tenho dado entre um post e outro. Espero que isso acabe, vamos ver se tomo jeito dessa vez :)

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