sábado, 26 de fevereiro de 2011

Confissões de um aprendiz de haicai

Resenha do livro Insistente Aprendiz
Por José Marins


Esse “Insistente aprendiz” é o segundo livro de haicais de Nelson Savioli, também saído pela Qualitymark.

No primeiro, “Burajiru Haicais”, os poemas vinham acompanhados da experiência de levar o haicai ao mundo corporativo. Agora a aventura é outra: publicar haicais e contar o gozo de sua criação, ou trazer suas associações com outros poemas, ou revelar fontes da memória do autor em notas que enriquecem a obra.

O poema haicai, tão exíguo, não necessita de explicações. Nelson sabe disso e faz das notas aos haicais sua confissão de aprendiz. Demonstra seu entusiasmo e satisfação com suas vivências haicaísticas. Seu haicai brota da vivência, e, também de uma busca pela leitura dos poetas clássicos e dos estudiosos (também em inglês).

A promessa feita no início de se buscar um diálogo com o leitor é cumprida de duas formas: o leitor pode realizar a leitura dos poemas e não buscar as notas; ou, num segundo momento, ler os haicais e cada uma das notas correspondentes e ter aí um outro prazer. Na leitura de alguns poemas busquei nas notas mais informações sobre aquele haicai e encontrei outros registros, espécie de ampliação das possibilidades de leitura, noutras o paralelismo interessante.

O autor não está sozinho. Antes Masuda Goga, Teruko Oda e Eunice Arruda fizeram algo parecido em menor escala no livro “Haicai – a poesia do kigo” de 1995. Neste, como dizem os autores: “Os haicais foram compostos sobre os mesmos temas (kigo), e, para melhor percepção por parte dos leitores, foi anexada a cada poema uma explanação (...)”. No livro de Savioli as notas não explicam nem têm finalidade didática, mas associam, abrem janelas para outras visões.

Se, infelizmente, em outros livros há o enxerto teórico pesado, aqui a leveza de alguns achados acrescentam novos significados e nos revelam porque o livro chama-se “insistente aprendiz”.

Outra realização interessante desse livro é o reconhecimento que Nelson Savioli tem para com os colegas. Atitude construtiva essa de anotar em livro as fontes, os colaboradores, os momentos, os “insights” do seu aprendizado.

É gratificante ler mais um novo livro que privilegia o haicai tradicional, que vem assumindo o seu espaço entre os estilos do poema haicai em nossa terra (um país de haicaístas como sonhou o mestre Kyoshi Takahama?)

Escolhi um poema de cada estação para ilustrar esta pequena resenha:

Esfrego o olhos.
Uma borboleta branca
sobre o lençol.

Aqui o poema registra também que se trata de uma vivência do poeta, requisito do feitio do haicai. Podemos ver a borboleta ou um desenho de borboleta nas dobras brancas. Esfregar os olhos ainda mostra alguém sonolento.

No velho mangue –
um caranguejo corre
sem fazer barulho.

Inúmeras são as recriações do haicai da rã de Basho. Este tem uma originalidade nutrida pela observação do poeta, a de que o caranguejo se move em silêncio. Demonstra que é possível buscar o que os antigos buscaram com voz própria.

Você também, grilo,
admira a beleza desse
arranjo de flores?

Bem ao gosto oriental, traz o haimi dos haicais de Issa, Basho. A justaposição dá conta de nos revelar um belo contraste.

Ainda sonolento –
brilho de um caco de vidro
anuncia a manhã.

O haijin é sempre um self acordado no poeta. O brilho de um caco é captado pela mente alerta. Ser aprendiz de haicaísta será isto, afinal?

A leitura de “Insistente aprendiz” trouxe-me o prazer do haicai compartilhado, a satisfação de ler os poemas de um colega dedicado.

Já estou à espera do próximo livro.

–––––

José Marins, é escritor e haicaísta
http://fieiradehaicais.blogspot.com


O livro pode ser adquirido através do site da Quality Mark ou nas livrarias (a pedido).

5 comentários:

  1. Caro José Marins:

    É isto: o comentário tem de ser certeiro e enxuto como o haiku ele mesmo! foi o que o meu amigo fez com o estimável e didáctico livro do nosso companheiro de letras Nelson Savioli.
    E uma questão: porque é que se fala tanto de aprendizado quando se escreve sobre haiku? Talvez porque o haiku é mais uma consequência de um processo que é mais amplo que a poesia.
    Um abraço do

    David Rodrigues
    Lisboa, Portugal.

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  2. Querido José Marins:

    Que maravilha, começar a semana com este seu belo presente!

    Insistente Aprendiz
    no viver cada instante
    - Eterno,colore o mundo.

    Amei-os!

    ATR
    Belo Horizonte
    - Brasil

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  3. crítica séria a esse livro, sem coorporativismos, fez o felicíssimo.

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  4. agradeço à raimara mas quero dizer que o texto do Marins tb é sério.

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